O Embaixador Yang Yirui Concedeu uma Entrevista ao Semanário Português Expresso
2026-05-18 18:00

Recentemente, o Embaixador da China em Portugal, Yang Yirui, concedeu uma entrevista escrita ao semanário português Expresso, na qual abordou, entre outros temas, o desenvolvimento económico da China, a parceria estratégica global entre a China e Portugal e a cooperação económica e comercial sino-portuguesa. No dia 15 de maio, o Expresso publicou na íntegra o conteúdo da entrevista.

1) Assumiu o cargo de embaixador da China em Portugal no final do ano passado. Como é que abraçou esta missão?

Em 31 de dezembro de 2025, cheguei a Lisboa para assumir o cargo de 15º Embaixador da China em Portugal. Ao pisar esta terra, senti profundamente que a amizade sino-portuguesa transcende montanhas e oceanos e resiste ao tempo. Tanto a sinceridade na cooperação manifestada por todos os setores da sociedade portuguesa como a simpatia e hospitalidade das pessoas deixaram-me muito comovido. 

Embora a China e Portugal estejam geograficamente distantes, a amizade tradicional é profunda. As relações sino-portuguesas têm-se desenvolvido de forma saudável e estável, com resultados frutíferos na cooperação em todos os domínios. A China tem sempre visto os laços com Portugal numa perspectiva estratégica e de longo prazo. Na qualidade de Embaixador da China em Portugal, sinto que esta missão é honrosa e encarregada de enorme responsabilidade. Num contexto internacional marcado por mudanças sem precedentes, o aprofundamento da cooperação e da amizade entre a China e Portugal não só beneficia os dois povos, como também contribui para a promoção da paz e do desenvolvimento mundial. 

2) Quais os objetivos primordiais que o acompanham neste mandato?

Tenho, como principais objetivos durante o meu mandato, os seguintes: Primeiro, dar continuidade à tradicional amizade sino-portuguesa e tornar as boas relações ainda melhores. Segundo, aprofundar a cooperação bilateral pragmática em todos os domínios e alcançar um nível mais elevado de benefício mútuo. Terceiro, promover o desenvolvimento saudável e estável das relações China-União Europeia, com base nas boas relações sino-portuguesas. Por último, prestar um bom serviço às instituições e cidadãos chineses em Portugal e defender eficazmente os seus direitos e interesses legítimos. 

3) Assumiu o reforço das relações bilaterais entre Portugal e a China como um desses eixos prioritários. Como é que defende que o mesmo se deve concretizar?

Em primeiro lugar, tendo a diplomacia de alto nível como orientação estratégica, deve-se intensificar os contactos de alto nível e reforçar a comunicação estratégica. Quanto mais instável e turbulenta for a situação internacional, tanto mais a China e Portugal devem reforçar a comunicação, a confiança mútua e a cooperação, promovendo em conjunto a Parceria Estratégica Global.

Em segundo lugar, deve-se aprofundar a cooperação prágmática, concretizando os consensos alcançados pelos líderes dos dois países. Poderão intensificar a articulação das estratégias de desenvolvimento, alargar a cooperação pragmática em domínios como a inovação, o desenvolvimento sustentável, o mar e a medicina, e explorar em profundidade mais pontos comuns de cooperação.

Em terceiro lugar, deve-se reforçar o intercâmbio cultural. Continuarão a promover no diálogo e a cooperação em domínios como a educação, a cultura, o cinema e o desporto, e continuar a encorajar o intercâmbio de estudantes e o turismo recíproco, bem como a organização mútua de semanas culturais, exposições de arte e outras atividades, aproximando cada vez mais os dois povos. 

Em quarto lugar, deve-se dar pleno uso ao papel de Macau. Macau é portadora de profundos laços históricos entre a China e Portugal, constituindo uma ponte natural da cooperação económica e comercial e o intercâmbio cultural entre os dois países, bem como entre a China e os países de língua portuguesa. A China e Portugal podem apoiar-se nesta plataforma única para promover a cooperação prática. 

4) Portugal e China são parceiros estratégicos com uma história secular a uni-los. Na sua perspetiva, a relação entre os dois países, nomeadamente do ponto de vista comercial, continua a estreitar-se?

A cooperação económica e comercial entre a China e Portugal não só continuará a aprofundar-se, como também evoluirá no sentido de uma maior diversificação e de uma qualidade superior. A China e Portugal mantêm uma parceria estratégica global, com base sólida e enorme potencial de cooperação. Os dois países complementam-se mutuamente no domínio económico e comercial. Nos últimos anos, o comércio bilateral tem registado um desenvolvimento estável. A China mantém-se há muito como o maior parceiro comercial de Portugal na Ásia. Em 2025, a troca comercial bilateral atingiu 8,869 mil milhões de euros, um aumento de 3,4% em relação ao ano anterior. 

Os investimentos chineses em Portugal abrangem diversos setores, como a de energia, das redes elétricas, financeiro, de seguros e de saúde. Por exemplo, a CALB anunciou um investimento de 2065 milhões de euros que prevê a construção de uma fábrica de baterias de lítio em Portugal, com a estimativa de criação de 1800 novos empregos, dos quais 497 altamente qualificados. Ao mesmo tempo que consolidam a cooperação tradicional, ambas as partes estão constantemente a explorar novos pontos de crescimento. Por exemplo, está a ser gradualmente libertado o potencial de cooperação em áreas como os veículos elétricos, a economia digital, a economia verde e a biomedicina. 

Além disso, Portugal possui perfeitas condições naturais. Os seus produtos agroalimentares, como o azeite, o vinho, a cerveja e o queijo, apresentam uma qualidade excecional e uma boa relação qualidade-preço, tendo muitos deles tornado produtos de destaque que enriquecem a mesa dos chineses. Em setembro de 2025, durante a visita do Primeiro-Ministro Luís Montenegro à China, assinaram os protocolos sobre a importação de lã não lavada e pera fresca de Portugal para a China, começando esses produtos a entrar no mercado chinês. A China está disposta a importar mais produtos de qualidade de Portugal e convida Portugal a participar ativamente nos eventos chineses, como a China International Import Expo (CIIE), para partilhar as oportunidades proporcionadas pelo mercado chinês. 

5) O reforço dos laços sino-portugueses é também uma oportunidade de impulsionar e aprofundar as relações China-União Europeia? Em que medida?

Portugal tem uma rica herança histórica, tendo sido pioneiro, há mais de 500 anos, na Era dos Descobrimentos. Sendo Portugal um importante estado-membro da União Europeia, muitos eventos e documentos históricos que influenciaram a UE receberam o epíteto “de Lisboa”, tais como o Tratado de Lisboa, a Declaração de Lisboa e a Estratégia de Lisboa, entre outros. 

Entre os países europeus, Portugal alcançou vários primados no desenvolvimento das relações com a China em diversos domínios. Foi o primeiro país da Europa Ocidental a assinar com a China atos de cooperação no âmbito da iniciativa “Uma Faixa, Uma Rota”, o primeiro estado-membro da UE a estabelecer uma “Parceria Azul” com a China, e o primeiro país da Zona Euro que emitiu títulos na moeda chinesa, sendo um bom amigo e parceiro da China na UE.

A China sempre considera a Europa um polo importante num mundo multipolar e apoia a autonomia estratégica da Europa. Está disposta a manter a relação de parceria com a Europa e a reforçar o nível de cooperação. Desde o ano passado, o volume total de comércio entre a China e os países europeus ultrapassou um bilião de USD; mais de dois milhões de turistas europeus viajaram pela China graças à política da isenção de visto; líderes europeus visitaram a China em sucessão; os intercâmbios entre as duas partes tornaram-se cada vez mais estreitos; e foram ainda alcançados um conjunto de novos acordos de cooperação. 

A China atribui grande importância ao papel único que Portugal desempenha na UE e na cena internacional. Está disposta a reforçar a colaboração com Portugal, defendendo de forma inequívoca o multilateralismo, e a impulsionar o desenvolvimento saudável e estável das relações China-UE através das relações sino-portuguesas que continuam a melhorar, proporcionando assim mais estabilidade e certeza ao mundo.

6) 20 anos volvidos sobre a assinatura da Parceria Estratégica Global China-Portugal, que balanço é possível ser feito e qual a importância deste mecanismo?

Em 2005, a China e Portugal estabeleceram a Parceria Estratégica Global. Desde então, as relações bilaterais têm-se desenvolvido num ritmo acelerado. Ao longo de mais de 20 anos, a confiança política entre os dois países tem vindo a reforçar-se, a cooperação prática tem produzido resultados frutíferos e os intercâmbios culturais têm-se tornado cada vez mais estreitos, trazendo benefícios concretos aos povos de ambos os países. O volume do comércio bilateral cresceu de 998 milhões de euros em 2005 para 8869 milhões de euros em 2025 (segundo dados estatísticos da China). Os dois países têm fomentado consistentemente a aprendizagem mútua e o intercâmbio interpessoal. Atualmente, mais de 40 universidades chinesas oferecem cursos de língua portuguesa, enquanto que em Portugal foram criados cinco Institutos Confúcio, inaugurados quatro laboratórios conjuntos, e artistas de ambos os países realizaram várias apresentações conjuntas, construindo juntos uma ponte de aproximação entre os povos. 

No passado mês de março, o Presidente Xi Jinping enviou mensagem ao Presidente António José Seguro para felicitar a sua tomada de posse, salientando a vontade de trabalhar em conjunto com o seu homólogo para reforçar a comunicação estratégica, consolidar a confiança mútua de alto nível e promover a cooperação de alta qualidade, com o objetivo de substanciar constantemente a Parceria Estratégica Global e trazer mais benefícios aos povos dos dois países. Em setembro de 2025, por ocasião do 20º aniversário da Parceria Estratégica Global, o Primeiro-Ministro Luís Montenegro visitou a China e os dois países assinaram vários documentos de cooperação, o que reflete o elevado nível de desenvolvimento das relações China-Portugal. 

7) Portugal continua a ser um destino de investimento estratégico para empresas chinesas?

Portugal é um importante destino de investimento para as empresas chinesas na Europa. Até ao terceiro trimestre de 2025, a China foi o quinto maior país de origem do investimento estrangeiro em Portugal (conforme estatísticas sobre o IED por país de origem final), com um investimento direto acumulado de 14,4 mil milhões de euros. Para as empresas chinesas, Portugal apresenta um forte poder de atração. Por um lado, apresenta um ambiente político e jurídico estável, um mercado altamente aberto e uma localização privilegiada, sendo ponto de ligação entre os mercados da Europa, África e América Latina. Por outro lado, possui um vasto potencial de desenvolvimento em áreas como as energias renováveis, a economia digital e a indústria de alta tecnologia, o qual se complementa bem com as vantagens das empresas chinesas. 

As empresas chinesas em Portugal adotam, de forma generalizada, modelos de gestão localizados, cumprem rigorosamente a legislação da União Europeia e de Portugal e assumem ativamente responsabilidades sociais, sendo altamente reconhecidas pelo governo e pela sociedade portuguesa. Ao mesmo tempo, devemos ver que o atual contexto económico internacional e a situação geopolítica estão em mudança, e que a legislação da UE e os mecanismos de controlo dos investimentos estão em constante alteração. Estes fatores têm impacto nas decisões de investimento das empresas. Esperamos que Portugal crie um ambiente comercial aberto, equitativo, justo e não discriminatório para as empresas chinesas que investem e operam no país. 

8) E, por outro lado, que oportunidades abre o mercado chinês para o investimento português?

O desenvolvimento da China alcançou conquistas históricas que chamaram a atenção do mundo inteiro. Nos últimos cinco anos, o crescimento económico médio anual foi de 5,4%, mantendo a contribuição para o crescimento económico mundial em cerca de 30%, tornando-se a fonte de impulso mais estável para o crescimento económico mundial. As “Duas Sessões” deste ano aprovaram o esboço do 15º Plano Quinquenal para o Desenvolvimento Económico e Social Nacional, clarificando ainda mais a expansão da abertura externa de alto nível, o que proporcionou amplas oportunidades às empresas de vários países, incluindo Portugal. Nos primeiros dois meses de 2026, foram criadas na China 8631 novas empresas com investimento estrangeiro, um aumento homólogo de 14%. As empresas estrangeiras continuam a intensificar os seus investimentos na China e a aprofundar a sua presença em toda a cadeia industrial, demonstrando continuamente a sua confiança na resiliência da economia chinesa e nas oportunidades do mercado chinês. 

Em primeiro lugar, são as oportunidades do mercado gigantesco. O mercado chinês, apoiado por mais de 1,4 mil milhões de habitantes e um grupo de rendimento médio de quase 500 milhões de pessoas, abrange zonas urbanas e rurais e interliga todos os tipos de consumidores, criando um espaço de procura vasto e único a nível mundial. Nos últimos anos, produtos portugueses de excelência, como o vinho, o azeite e os artigos de cortiça, têm vindo a ser cada vez mais apreciados pelos consumidores chineses. Enquanto destino turístico famoso, Portugal tem atraído continuamente mais turistas chineses. Com a constante modernização do setor de serviços e do mercado de consumo da China, as empresas portuguesas dos setores do turismo e cultural dispõem também de cada vez mais oportunidades de desenvolvimento na China. 

Em segundo lugar, são as oportunidades da competitividade global na indústria transformadora. A China é o único país do mundo que possui todos os ramos industriais listados na classificação da ONU, abrangendo 41 grandes categorias, 207 intermediárias e 666 subcategorias. A sua escala global da indústria transformadora ocupa o primeiro lugar mundial há 16 anos consecutivos. Quanto ao mercado chinês, as cadeias de produção e de abastecimento são completas e eficientes, o ambiente empresarial está em constante otimização, novos modelos de negócio têm florescido seguidamente. Estas vantagens tornam-se cada vez mais evidentes na nova onda de reestruturação das cadeias de produção globais. Convidamos mais empresas portuguesas a investir e a integrar-se na China, de modo a consolidar a sua competitividade global. 

Em terceiro lugar, são as oportunidades para a implementação eficiente do avanço tecnológico. O mercado chinês criou uma plataforma para a validação rápida e a promoção em escala das novas tecnologias, caracterizando-se por uma inovação dinâmica e uma atualização eficiente. A China possui inúmeros e diversificados cenários de aplicação em áreas como setores emergentes, transformação industrial, energias renováveis e economia digital, tornando-se um acelerador das novas tecnologias e reduzindo eficazmente o ciclo de transformação tecnológica. As empresas portuguesas de ciência e tecnologia podem estabelecer-se na China, realizarem atividades de I&D e produção, e alcançar um maior crescimento no mercado chinês.